Edson Braga defende nova visão sobre resíduos na indústria de alimentos

18/09/2026 · Acontece no Sul
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Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos avalia que subprodutos podem se transformar em ingredientes, negócios e novas fontes de valor

A indústria de alimentos pode encontrar parte de sua próxima grande frente de inovação dentro das próprias fábricas. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, cascas, sementes, bagaços, farelos, soro e outras correntes descartadas ainda podem carregar valor nutricional, funcional ou econômico.

Na sua avaliação, o desafio não está apenas em reduzir desperdícios, mas em compreender melhor aquilo que sobra dos processos.

Materiais hoje classificados como resíduos podem conter fibras, proteínas, gorduras, pigmentos, aromas, energia ou outras propriedades capazes de gerar novas aplicações.

A questão passa a ser menos sobre como descartar e mais sobre quanto valor ainda existe naquela matéria.

Resíduo pode ser uma definição econômica

Uma corrente deixa de ter utilidade quando o processo industrial não encontra mais aplicação para ela.

Isso não significa necessariamente que perdeu todo o seu valor.

Cascas, sementes ou bagaços podem continuar apresentando composição relevante, mas exigir tecnologia, escala ou novos mercados para serem aproveitados.

Nesse sentido, parte do desperdício pode refletir uma limitação do sistema produtivo atual, e não uma ausência de potencial.

Fábricas precisam conhecer melhor aquilo que descartam

Medir apenas o peso dos resíduos oferece uma visão incompleta.

Também é necessário entender composição, estabilidade, segurança, volume e possíveis aplicações.

Uma corrente pode conter água, fibras, proteínas, açúcares, gorduras ou compostos de interesse tecnológico.

Esse mapeamento permite que P&D, operações e finanças deixem de enxergar apenas custo de descarte e passem a avaliar oportunidades.

Separação pode definir o potencial de reaproveitamento

Quanto mais diferentes materiais são misturados, menor tende a ser a possibilidade de valorização.

Por isso, circularidade começa no desenho do processo.

Separar correntes limpas, preservar rastreabilidade e controlar temperatura ou armazenamento pode facilitar o uso posterior.

Isso significa que o aproveitamento precisa ser pensado antes de o resíduo chegar ao final da linha.

Engenharia industrial passa a ter papel central nessa transformação.

Subprodutos podem ganhar função de ingrediente

A indústria pode deixar de enxergar determinadas matérias apenas como sobras e passar a tratá-las como novas fontes de ingredientes.

Uma operação com tomate, por exemplo, pode gerar não apenas molho, mas também fibras, sementes, óleos ou componentes de cor e aroma.

A mesma lógica vale para frutas, cereais, leite e outras matérias-primas.

Esse modelo amplia a quantidade de valor extraída de cada tonelada processada.

Circularidade precisa gerar produto real

Para Edson Braga, reaproveitar um material apenas para melhorar indicadores ambientais não é suficiente.

O novo ingrediente precisa cumprir uma função.

Pode contribuir para textura, sabor, estrutura, nutrição, estabilidade ou custo.

Também precisa apresentar segurança, viabilidade econômica e aceitação sensorial.

Quando a aplicação não cria valor concreto, o problema apenas muda de lugar.

Fermentação e biotecnologia ampliam possibilidades

Nem todo subproduto precisa ser utilizado exatamente como sai da linha.

Fermentação, processos enzimáticos e outras tecnologias podem modificar composição e funcionalidade.

Uma corrente de baixo valor pode se transformar em substrato para novos processos ou ser fracionada em componentes mais interessantes.

Essa possibilidade aproxima circularidade de biotecnologia e engenharia de alimentos.

O objetivo passa a ser compreender melhor a matéria e descobrir quais aplicações ela pode assumir.

Inteligência artificial pode conectar resíduos a novas aplicações

Outro caminho está no uso de dados.

Informações sobre composição, propriedades funcionais, volumes, custos e processos podem ser combinadas para identificar possíveis usos.

Uma corrente rica em fibra de uma indústria pode atender à necessidade de outra.

Outro material pode apresentar capacidade de retenção de água, cor, aroma ou potencial para fermentação.

Ferramentas de inteligência artificial podem ajudar a encontrar essas correspondências em uma escala difícil de alcançar manualmente.

Ecossistemas industriais podem ampliar aproveitamento

Nem toda fábrica precisa transformar internamente aquilo que descarta.

Em algumas situações, a melhor solução pode ser criar redes entre empresas próximas.

Uma produz determinada corrente, outra processa, uma terceira estabiliza e outra utiliza em seus produtos.

Esse modelo de simbiose industrial pode tornar a localização das fábricas ainda mais estratégica.

Além de logística, energia e fornecedores, empresas podem começar a considerar quais outras operações existem ao redor e como seus fluxos podem se complementar.

Regiões agrícolas podem capturar mais valor

Países com grande produção agrícola possuem uma oportunidade particular.

Quanto maior a quantidade de biomassa processada, maior também o potencial de gerar novas aplicações a partir das correntes secundárias.

Para regiões como a América Latina, isso pode significar ampliar a produção de ingredientes, tecnologia e conhecimento sobre matérias-primas que hoje deixam as fábricas com pouco valor agregado.

O avanço não depende necessariamente de plantar mais.

Pode vir de utilizar melhor aquilo que já é produzido.

Sustentabilidade ganha força quando também gera margem

Projetos ambientais tendem a ganhar escala mais rapidamente quando resolvem simultaneamente questões econômicas.

Uma solução que reduz descarte, elimina custos e cria uma nova fonte de receita possui maior possibilidade de se manter no longo prazo.

Por isso, a análise precisa considerar volume, investimento necessário, tecnologia disponível e mercado potencial.

Uma corrente de menor volume pode ser mais interessante do que outra muito maior caso apresente maior valor ou facilidade de transformação.

Circularidade, nesse sentido, também é uma decisão de negócio.

P&D pode procurar valor dentro da própria operação

Para Edson Braga, equipes de pesquisa e desenvolvimento podem ampliar sua missão.

Além de criar novos produtos, podem investigar onde a empresa já possui recursos que ainda não estão sendo aproveitados.

Essa abordagem pode gerar ingredientes, processos, parcerias e até novas unidades de negócio.

A pergunta deixa de ser apenas como produzir mais ou mais barato.

Passa a incluir quanto da matéria que já entra na fábrica está realmente sendo convertida em valor.

A próxima grande matéria-prima da indústria talvez não esteja em uma nova plantação ou em um fornecedor desconhecido.

Pode estar sendo produzida diariamente dentro da própria operação.

E, em alguns casos, ainda sendo paga para ser descartada.